Sete Propostas Pastorais para Atender uma Sociedade em Luto


A humanidade tem várias formas de viver o luto. Dependendo da cultura, da época, da circunstância da perda de um querido, os ritos fúnebres podem variar. Alguns duram meses ou anos; outros, sobretudo no mundo industrial, marcado pelo descarte, são formalmente celebrados em questão de poucos dias. Em certos lugares, o silêncio honroso predomina; em outros, festeja-se a “viagem” da pessoa para mais perto do Sagrado..


Especialistas, sobretudo os das áreas de Antropologia, Psicologia, Teologia, apenas para citar algumas, afirmam que ignorar os fenômenos da morte e evitar o luto pode não ser uma boa saída. Assim, é urgente de ajudar as pessoas a viver a experiência da perda.


No Brasil, marcado pela multiplicidade cultural, há modos diversos de celebrar, liturgicamente ou não, a morte. Algumas tradições têm raízes profundas, com costumes medievais europeus ou herdados de culturas indígenas, africanas ou de outros povos.


Hoje a maior parte dos brasileiros habita as cidades. O contexto capitalista, marcado pelo consumo de produtos e serviços, de pessoas e suas culturas, leva à banalização do descarte, inclusive humano. Assim, quem não produz nem pode comprar é relegado a último plano tanto por corporações quanto pelo próprio Estado, que deveria cuidar dos cidadãos mais vulneráveis, como os idosos, as crianças, os enfermos, as pessoas com deficiência, os analfabetos, entre muitos outros.


Nesse cenário, a morte e as sensações que ela produz se tornam um horror. Atualmente ela, e não mais o sexo, é o maior tabu. Há uma tácita repulsa contra os mortos e os enlutados. Quanto mais longe estiverem dos olhos da sociedade autoconsiderada semovente, melhor! Mas essa não deve ser a atitude de quem deseja seguir os passos de Cristo. É bom recordar que sepultar os mortos (e tudo o que isso implica) é uma das obras de misericórdia.


A pandemia e o luto não elaborado


Na pandemia de covid-19, em números oficiais, o Brasil perdeu mais de 600 mil pessoas (esse índice, para alguns, está abaixo do real). No mundo todo, foram 5 milhões de mortos, segundo a Organização Mundial de Saúde. Devido às restrições que, em muitos lugares, ainda vigoram, as famílias não puderam celebrar os ritos fúnebres ou de luto.


Um caso emblemático ocorreu numa das comunidades nas quais sirvo como diácono, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Uma senhora que era liderança comunitária, uma das fundadoras do bairro, servidora da paróquia e amada por numerosa gente foi, no lugar, uma das primeiras vítimas da pandemia. O sepultamento, cumprindo os protocolos sanitários, teve de ser feito às pressas, no itinerário hospital-túmulo, sem passar por velório.


Como ocorreu com as famílias de centenas de milhares de outros irmãos e irmãs vitimados pelo famigerado novo coronavírus (e aliados), não houve abraços, preces, celebrações de “sétimo dia” (um dos modos brasileiros de encerrar publicamente o luto), consolo de amigos. A família daquela senhora, formada apenas pelo esposo e uma filha, viveu quase sozinha a dor da irreparável perda.


Pela amplitude do número de vítimas, podemos dizer que esse é um gigantesco desafio pastoral para a Igreja. Será necessário ter atenção redobrada, diligência e honesta criatividade para ajudar tantas famílias feridas.


Propostas pastorais

Sem desejar, é claro, esgotar o tema, eu gostaria de propor algumas ações às comunidades de fé, como um meio de colocar-se ao lado de quem sofre a perda de alguém querido, seja vitimado pela pandemia, seja por outros motivos, como a violência, suicídios, outras doenças…


Ao conversar com meu irmão de ministério, o diácono Luiz Alberto Barbosa, membro da Pastoral da Esperança na Arquidiocese de Belo Horizonte, ele me falou de algumas ações que os agentes estão implantando para acompanhar as famílias enlutadas. Além dessas, também partilho outras iniciativas. Talvez poderão ser úteis também em outros contextos.


1. Uma Pastoral da Esperança mais abrangente

Muitos pensam que a Pastoral da Esperança cuida apenas das celebrações das exéquias, as chamadas “encomendações” nos cemitérios e velórios, mas seu campo de atuação é bem maior. Mais do que nunca, temos de reforçar esse ministério em nossas comunidades. Além de contar com ministros bem preparados para presidir as exéquias, essa preciosa pastoral tem a missão de acompanhar, bem de perto, as famílias enlutadas pelo tempo necessário. Além disso, deve estar em diálogo com outros serviços eclesiais e mesmo civis para orientar quanto ao processo de inventário, à busca de benefícios previdenciários, indenizações e assistência adequada aos que ficaram desassistidos, especialmente os vulneráveis.


2. Reforçar os serviços de escuta e aconselhamento

A escuta atenta e respeitosa é uma das formas de ajudar irmãos e irmãs a curar feridas. Para isso, é necessário contar com agentes bem preparados, respeitosos, inspirados nos valores do Evangelho e que saibam guardar sigilo. É importante as pessoas terem conhecimento da existência dessa pastoral nas comunidades de fé. Os ministros, porém, não devem ficar apenas esperando serem procurados, mas se anteciparem e irem ao encontro de quem necessita. Conforme as circunstâncias, a escuta também pode ser feita por telefone, videochamada ou outro meio.


3. Celebrar a memória de quem se foi

Liturgicamente, muitos não puderam se despedir e entregar nas mãos de Deus seus amados. Ainda que seja em datas seguidas, para atender bem a todas as famílias, é importante convidar famílias e amigos para um momento comunitário de preces em memória dos falecidos. Isso pode ser feito nos lugares costumeiros de oração, nas casas ou ao redor do túmulo. Esse roteiro deveria ser bem elaborado, sem muitas complicações e valorizando os sinais, como a água, as velas, a foto da pessoa falecida, os paramentos, as flores, etc. Sei que a messe é enorme e poucos os operários, mas a celebração fúnebre é uma expressão muito humana e jamais pode ser ignorada, mesmo com as limitações. Veja uma proposta de roteiro para celebração em casa: https://revistadeliturgia.com.br/exequias-em-isolamento/


4. Criar um memorial comunitário

Nas igrejas, capelas ou oratórios, poderia haver um pequeno memorial em homenagem aos membros falecidos da comunidade. Se for oportuno, pode ser um lugar onde as famílias deixem fotos, flores, mensagens, velas. Nesse lugar bem organizado, limpo e belo, haja um crucifixo e uma arte recordando que nosso Deus é o Senhor da Vida.


5. Celebrações on-line

Em contextos de restrições, as pessoas podem se reunir, via internet, para a escuta da Palavra e orar por quem partiu e pela família enlutada. Não é o ideal, mas é o que muitas vezes se pode fazer. Eu conduzi algumas celebrações assim, no auge do isolamento, e foi muito confortador saber que as famílias puderam contar com a solidariedade dos amigos e da Igreja. A recomendação é de um roteiro bem preparado, simples e breve. Se preciso, buscar o auxílio da Pastoral da Comunicação ou de alguém com destreza em lidar com as ferramentas digitais.


6. Apoio a profissionais

Na pandemia, os profissionais da saúde, a despeito da histórica desvalorização que sofrem em seu trabalho, foram tidos como heróis. Muitos, porém, confundem-nos com os dos quadrinhos. São homens e mulheres de carne e osso. Muitos ainda estão traumatizados com a dor de ver tantas vidas se apagarem diante dos olhos e verem morrer até os próprios colegas. O mesmo vale para muitos outros trabalhadores e trabalhadoras que se expuseram ao risco, como os de transporte, do comércio, da segurança, da limpeza e os ligados a serviços como os de necrotérios, funerárias e cemitérios. As comunidades de fé poderiam criar momentos com essas pessoas, escancarando as portas para celebrar com elas e ouvi-las. Vale a antiga máxima: quem cuida também precisa ser cuidado.


7. Plantão nos cemitérios

Muitas vezes, acompanho o drama de familiares que tentam conseguir alguém para presidir as exéquias nos velórios e cemitérios. Infelizmente nem todas as demandas conseguem ser atendidas, por causa da escassez de ministros qualificados. Uma lástima! As comunidades em cuja área exista um espaço fúnebre deveriam ter um olhar especial a esses ambientes. Dependendo do lugar, seria conveniente haver um plantão de ministros que pudessem celebrar os funerais, poupando a família do desgaste de ter de procurar, improvisar uma celebração ou mesmo ficar sem assistência nessa delicadíssima hora. A Pastoral da Esperança da Arquidiocese de Belo Horizonte está buscando organizar celebrações semanais da Palavra nos cemitérios localizados nos 28 municípios de sua área de abrangência. Com certeza, serão muito proveitosos esses momentos, um bom exemplo.


Os seguidores de Jesus têm a missão de anunciar e valorizar a vida (da qual a morte faz parte). A experiência da morte e do luto deve ser tratada com o devido cuidado. São fenômenos humanos e sagrados, tocam em nossos limites e nos chama a recordar as bases de nossa fé. Não é demais citar aqui o célebre trecho do Prefácio dos Fiéis Defuntos I: “Aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada”


Dedico este texto a todas as famílias que, tal como a minha, vivem o luto.




Alessandro Faleiro Marques

Diácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.


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