São José, Esposo e Pai

Neste “Ano Amoris Laetitia", instituído pelo Papa Francisco para animar a Pastoral Familiar e comemorar os cinco anos da publicação da Exortação Apostólica homônima, não podemos deixar de aprofundar a vida de São José na perspectiva do documento. Assim, seremos capazes de celebrar, com maior ânimo, a solenidade de São José no dia 19 de março, festa tão cara ao nosso fundador, Santo Arnaldo Janssen.



1. A Trindade está presente no templo da comunhão matrimonial (AL 313)


“No sexto mês - narra São Lucas em seu Evangelho -, o Anjo Gabriel foi enviado a uma virgem desposada com um varão chamado José, da Casa de Davi, e o nome da virgem era Maria” (Lucas 1,26-27). E São Mateus acrescenta: “Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo” (Mateus 1,18).


Havia um jovem casal em Nazaré, bem inserido na vila: ele, José, com sua profissão de carpinteiro e talvez uma freguesia definida. Estava apto para dar mais um passo na vida: formar uma família e gerar uma descendência. Era da Casa de Davi. Ela, Maria, por sua vez, já tinha atingido a idade quando as mulheres se casam e era certamente um bom partido na redondeza. Foi bem preparada pelos pais para assumir os compromissos de esposa e mãe. O enlace de José e Maria, de acordo com os costumes, foi seguramente arranjado da melhor maneira possível por suas famílias, e a vila de Nazaré aguardava ansiosamente o dia da festa de casamento. Eles já estavam comprometidos e somente faltava a segunda parte do compromisso matrimonial: José levar a esposa para sua casa. O vínculo matrimonial assim celebrado estava profundamente garantido por alianças de famílias dentro da tribo e, sobretudo, conforme os preceitos da Aliança do Senhor.


Hoje também somos chamados, em nossa Igreja, a viver a espiritualidade matrimonial como “uma espiritualidade do vínculo habitado pelo Amor Divino”. Pois “Deus tem sua própria habitação nesta variedade de dons e encontros que fazem maturar a comunhão. Essa dedicação une ‘o humano e o divino’, porque está cheia do amor de Deus” (AL 315).


2. Uma espiritualidade do amor exclusivo e libertador (AL 319)


“No matrimônio - continua a Exortação -, vive-se também o sentido de pertencer completamente a uma única pessoa. Os esposos assumem o desafio de envelhecer e gastar-se juntos, assim refletindo a fidelidade de Deus” (AL 319), pois “quem não se decide a amar para sempre, é difícil que possa amar deveras um só dia”, lembra-nos São João Paulo II, na homilia para as famílias, proferida em Córdoba, Argentina, no dia 8 de abril de 1987.


Entre as duas etapas da celebração matrimonial, o jovem casal passou por uma crise séria: Maria se encontrava grávida. E não por José. Como o noivo enfrentou inicialmente a questão? Mateus nos recorda: “José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, resolveu repudiá-la em segredo” (Mateus 1,19). José não quis denunciá-la publicamente. Era seu direito, quase uma obrigação. Mas ele a amava. Respeitou-a. Não entendeu. Silenciou. Fez segredo para preservar Maria. Era justo. Escolheu caminhar com a outra e descobriu o caminho do Outro.


A Exortação prossegue: “Há um ponto em que o amor do casal alcança a máxima libertação e se torna um espaço de sã autonomia: quando cada um descobre que o outro não é seu, mas tem um proprietário muito mais importante, o seu único Senhor” (AL 320).


A voz do Outro então ressoou por intermédio do Anjo do Senhor num sonho: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo”.


José descobre então, no meio de um sonho, um significado maior. Percebe um ponto de vista mais amplo, diferente. Muitas vezes, na vida de um casal, o significado de uma situação difícil e dolorosa chega com o tempo, se este não se deixar prender pelo acontecimento momentâneo. Essas situações ajudam o amor do casal a amadurecer na fé e na percepção de que Deus está escrevendo em suas vidas.


“José, ao despertar do sonho, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa a sua mulher” (Mateus 1,24). A crise foi resolvida. O casal enfrentou, “com a cara e a coragem”, a sociedade e suas maledicências, e completou o enlace diante de Deus e dos conterrâneos. José não falou, não discutiu. Apenas agiu decididamente e em silêncio.


3. Uma espiritualidade da solicitude, da consolação e do estímulo (AL 321)


A Exortação acrescenta: “A família foi, desde sempre, o ‘hospital’ mais próximo. Prestemo-nos cuidados, apoiemo-nos e estimulemo-nos mutuamente” (AL 321), pois “Toda a vida da família é um ‘pastoreio’ misericordioso”. “A fecundidade matrimonial implica promover, porque ‘amar uma pessoa é esperar dela algo indefinível e imprevisível…’” (AL 322).

José assumiu a paternidade de Jesus, deu-lhe um nome, prerrogativa paterna na cultura judaica: “… e tu o chamarás com o nome de Jesus […] que, traduzido, significa ‘Deus Conosco’” (Mateus 1,21-23). José o incorporou a seu povo, à tribo de Davi, e o educou nos preceitos de Javé bem como nos ensinamentos da Torá. Por fim, ensinou-lhe sua profissão, a de tekton (carpinteiro).


Os inícios da trajetória familiar foram difíceis e desafiadores. Ao chegar com Maria grávida para o recenseamento em Belém, na cidade da Casa de Davi, não foram acolhidos pelos seus. O menino nasceu em condições precárias, numa gruta, no frio e no relento, como muitos sem-teto de nossas cidades hoje. Contudo José não se assustou, mas desmanchou-se em cuidados e atenção pela família.


Pouco depois, eles tiveram de fugir para um país distante, numa cultura muito diferente, pois o chefe do governo perseguia o Menino. Quantos meninos são ameaçados nas periferias de nossas cidades pelos mandantes do tráfico e toda a família precisa, de uma hora para outra, deixar tudo o que conquistaram! Quantos outros correm de suas casas que estão desabando nas inundações, vítimas de intempéries, mas sobretudo do descaso da administração pública local! Quantos ainda precisam deixar seus países e familiares por causa de conflitos e guerras, e vão se refugiar em países distantes, pouco dispostos a acolhê-los e integrá-los!


Por outro lado, quanta alegria não desfrutou nosso querido São José ao lado de Maria e de Jesus! Como bom pai, maravilhou-se com o crescimento do Menino, com as surpresas de cada idade. “E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lucas 2,52). Ficou comovido com a dedicação e pureza de sentimentos de Maria que “conservava a lembrança de todos esses fatos em seu coração” (Lucas 2,19.51), pois muitos foram os acontecimentos significativos na vida deles: a visita dos pastores, Simeão e Ana na apresentação do Menino no Templo, a visita dos Magos, a fuga e a estada no Egito e, por fim, o reencontro de Jesus no meio dos doutores, em Jerusalém.


Muito podemos ainda intuir e indagar sobre a vida de José, assim como a de Maria e a de Jesus. Sempre teremos algo de novo e atual para aprender. Deixemo-nos tocar, em nosso íntimo, por eles, por meio das escrituras e do silêncio da oração. Eles estão vivos no meio de nós e nos acompanham em nossa trajetória terrena. Abramos nosso coração ao mistério da Sagrada Família, imagem da Trindade Santa, Una e Trina.


José foi o grande provedor e cuidador da Sagrada Família. As escrituras não registraram qualquer palavra sua, apenas gestos decididos e corajosos, sempre a serviço dos seus. Desgastou-se, assumindo numerosos riscos e desafios. Em seu silêncio, foi muito expressivo, ativo e envolvido. Um homem sempre em saída.


Cultivemos um amor especial a esse pai que ajudou Jesus a ser o que Ele foi, tornando José patrono de nossa vida em missão, como nos ensinou Santo Arnaldo, no Pequeno Mensageiro do Coração de Jesus, em março de 1876:


“Assim como São José alimentou e protegeu Cristo e sua santa Mãe durante sua vida terrena, assim também ele nutre e protege os servos de Cristo que se dedicam, de maneira especial, à prática da virtude. Que ele também nos proteja e implore não somente a graça do pão terreno como também a do celestial, para que possamos chegar a ser realmente bons e piedosos. Bom e querido São José, rogai por nós! Amém.”



Referências


DUSICKA, Peter. Veneración de San Arnoldo Janssen a San José. Roma: VivatDeus, 2001. Disponível em: https://vivatdeus.org/es/library/art033/


EVANGELHO de Mateus, cap. 1 e 2. In: A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.


PAPA FRANCISCO. Carta Apostólica Patris Corde, por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como padroeiro Universal da Igreja. Vaticano: 8 dez. 2020. Disponível em: http://vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20201208_patris-corde.html


PAPA FRANCISCO. Catequese do Papa sobre São José: audiências-gerais de 17 nov. 2021 a 16 fev. 2022. Disponível em: http://vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2022.index.html


PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia, sobre o amor em família. São Paulo: Paulinas, 2016.




Irmã Maria Inês de Aragão, SSpS, é formada em Economia, Diretora Tesoureira da Redes (Rede de Solidariedade das Missionárias Servas do Espírito Santo) e Coordenadora da comunidade Madre Maria em Belo Horizonte.

Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags