O dia Mundial dos Sem Tetos...


O dia Mundial do Habitat foi criado pela ONU, em 1985, e é celebrado, anualmente, na primeira segunda feira do mês de outubro. No Brasil ficou conhecido como dia Mundial dos Sem-teto. O objetivo proposto pelas Nações Unidas, para esta data, é provocar a reflexão sobre a realidade urbana e o dever do Estado em prover moradia digna e adequada a todos os habitantes, bem como a responsabilidade coletiva em garantir o habitat para as gerações futuras.


A questão da concentração de bens nas mãos de poucos e a exclusão da grande maioria do planeta das mínimas condições de vida, vem de longe. “Desde que o mundo é mundo”, como dizia meu falecido avô. Um olhar mais atento aos textos sagrados faz-nos dar conta disto. Já o profeta Isaias, contemplando a dura realidade de seu tempo exclamava o que hoje vem ocorrendo nos quatro cantos do planeta: Ai de vós, que ajuntais casa a casa, e que acrescentais campo a campo, até que não haja mais lugar, e que sejais os únicos proprietários da terra!”, Is 5, 8.


O mesmo tema tem sido motivo de atenção e preocupação do Papa Francisco, sempre atento ao grito e à dor da grande maioria empobrecida do planeta. Em outubro 2014, durante um encontro dos movimentos populares na Bolívia, Francisco não hesitou em convidar os participantes a repetirem: “nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem-terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá!”. Um tripé indispensável para se ler a realidade dos sem-teto e encontrar soluções duradouras.


Como sempre tem feito, apontando caminhos a partir de pequenos gestos, em 2020, o Papa Francisco transformou o prédio de quatro andares Palazzo Migliori, no Vaticano, em um albergue para pessoas sem-teto. O edifício atualmente oferece comida, lazer e moradia para quem está passando por dificuldades financeiras.


No Brasil, os dados desta realidade falam por sim mesmos! Uma matéria da BBC Brasil, de 2018, já afirmava que o país contava com, pelo menos, 6,9 milhões de famílias sem casa para morar e cerca de 6,05 milhões de imóveis desocupados há décadas. O censo de 2019, feito pela Prefeitura Municipal de S. Paulo contabilizava 24.344 pessoas em situação de rua. É possível afirmar, sem sombras de dúvidas, que, com o advento da pandemia, este número deve ter aumentado em pelo menos mais 50%. O desemprego e falta de recursos econômicos tem jogado milhares de pessoas na rua.


Qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade humana, ao circular pelo centro antigo da cidade de S. Paulo, começando pela praça da Sé, passando pelo pátio do Colégio, indo em direção ao Largo do S. Bento e terminando no Largo S. Francisco, levaria no coração uma pergunta dramática: o que temos feito, neste país, para que tantos de seus cidadãos, cidadãs e sua família vivam à mercê do descaso do poder público, das instituições financeiras e de grande parcela da sociedade, que não se pergunta sobre a escandalosa concentração de riquezas e desigualdade social que impera em nosso pais? Esse é o motivo pelo qual as pastorais e movimentos que convivem e acompanham a população em situação de rua tem colocado no topo das suas reinvindicações por políticas públicas, o direito à moradia.


Essa dura realidade já era relatada nos anos 90 através de uma canção composta pelo missionário Verbita, Hélcio Nunes Grespam, que, com certa ironia cantava o drama vivido por tanta gente no seu dia a dia: “Meu teto é a lua, minha casa é a rua, você pode entrar. Bater não precisa, a porta que havia, impedia entrar. Mas quando entrar na minha casa não repare nada, esta panela mal lavada é porque falta água. A minha cama e a das crianças é o jornal da quarta. Desculpe se eu engano a fome tomando cachaça. Minha casa é a rua, não é como a sua, que encanta o olhar. Parece tão fria, um beco ou esquina em qualquer lugar”.

Durante este tempo dramático em que a humanidade tem vivido da pandemia COVID 19, a palavra de ordem mais ouvida foi “fique em casa!” Como ficar em casa se esse direito tem sido negado há décadas a milhares de pessoas? Isso se tornou uma permanente pedra de tropeço para as pessoas em situação de rua e um nó na garganta para a equipe do projeto Rede Rua que, há 30 anos, tem buscado ser presença misericordiosa e libertadora de Deus junto a essas pessoas no centro da cidade de S. Paulo e na região de Santo Amaro. Diariamente encontramos crianças, adultos, idosos e, sempre mais, famílias inteiras vivendo em barracas pelas calçadas e praças da cidade.


Nos últimos meses, chamou-nos a atenção, a presença de Dona Vera, uma senhora de 91 anos, que vem diariamente ao nosso encontro na quadra dos bancários (centro de S. Paulo) em busca de sua marmita de comida. A equipe descobriu que, mais do que afeto, ela também vem em busca de relações e proteção em meio a tantas inseguranças vividas no dia a dia.


Não é necessário ter os olhos muito abertos para perceber que algo está errado, e, com certeza, não é com as pessoas que são submetidas a situações tão desumanas e degradantes. A pergunta básica que nos fazemos e deveria ser feita por cada seguidor e seguidora de Jesus de Nazaré, o filho do Deus que é Pai das misericórdias é esta: O que Deus pede de nós frente a esta situação? Como eliminar do nosso meio o sofrimento vivido pelo Verbo Encarnado, que continua gritando na vida dos sem-teto de nossas cidades as aves tem ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”? (Mt 8,19)


Que bom será quando alcançarmos um tempo em que não haverá mais necessidade de celebrar o Dia Mundial dos Sem-teto, pois todos terão um lugar onde morar e as praças serão apenas locais de encontros de amizade, festas e lazer! Neste mês missionário atendamos ao apelo do Papa Francisco, “vamos sonhar juntos!”


Veja alguns momentos das atividades da Rede Rua







Arlindo Pereira Dias, Missionário do Verbo Divino

Coordenador da Rede Rua e Coordenador da JUPIC BRC.


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