Mudança Climática é um dos Temas mais Importantes para 2022


Sustentabilidade, meio ambiente e preservação ambiental são algumas das palavras que devem se tornar ainda importantes em 2022. As mudanças climáticas causadas pelo homem já levaram a um aumento de 1,07º na temperatura do planeta e os cientistas estimam que se nada for feito para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, haverá uma alta de 1,5°C a 2°C, ainda neste século.


As consequências podem ser devastadoras e, inclusive, colocar em risco a sobrevivência da espécie humana. O clima, drasticamente alterado, causará secas, inundações e inviabilizando a produção agrícola em algumas regiões. O derretimento das calotas polares se refletirá no aumento do nível dos oceanos, varrendo cidades litorâneas e ilhas do mapa.

Para entender o papel dos cristãos na preservação da criação divina e o que pode ser feito para frear o avanço da mudança climática, nós conversamos com o missionário comboniano Padre Dario Bossi e Irmã Ida Josefine Haurand, das Servas Missionárias do Espírito Santo (SSpS), os quais participaram da COP26, a principal conferência mundial sobre o tema. Confira o bate-papo.

SSpS - Como o senhor enxerga a situação do Brasil em relação ao meio ambiente? Quais os nossos pontos positivos e negativos?


Padre Dario: O Brasil é um dos países com a maior biodiversidade do mundo e alguns dos nossos biomas, como a Amazônia e o Cerrado, têm um papel decisivo para a manutenção do equilíbrio climático. O agronegócio e a criação de gado são, hoje, a maior ameaça ao meio ambiente e ao futuro de nossas terras. A área destinada para o plantio de soja, cana e milho nos últimos anos aumentaram em 35 milhões de hectares, enquanto no mesmo período os cultivos ligados à alimentação das pessoas, como feijão, arroz e mandioca, diminuíram em quatro milhões de hectares. Fica claro que a opção comercial do Brasil é pela expansão da produção e venda de commodities agrícolas para o exterior e pelo aumento da fome e da destruição ambiental no país. O problema maior é que o governo não só não fiscaliza e não pune os ilícitos, como lhes facilita-lhes e os incentiva. É um tiro que sairá pela culatra em curto prazo, porque os efeitos negativos sobre o clima afetarão principalmente estes mesmos cultivos extensivos, responsáveis pelas secas cada vez mais crescentes no país.


SSpS: Na opinião do senhor, o que é preciso fazer para mudar esse cenário?


Padre Dario: O Papa Francisco disse que não há mais tempo e que é absolutamente absurdo iludir-se achando que sejam suficientes pequenas reparações a um sistema que já se caracterizou como destruidor. Ele evoca uma transformação radical com a valorização das iniciativas locais que restituem equilíbrio na relação entre campo e cidade, respeito aos territórios mais frágeis, preservação da Amazônia e de nascentes no Cerrado, além da proteção às características mais autênticas e ainda vivas dos nossos biomas. Essa é a proposta da economia circular, que nos convida a repensar o mundo em todas as suas dimensões: economia, cultura, política, espiritualidade, os estilos de vida, organização social e do trabalho. É um trabalho de longo prazo de fortalecimento das intuições das novas gerações para que a proteção integral da vida seja cada vez mais estrutural na construção da cultura social.


SSpS: Se nada for feito, quais são as perspectivas para o futuro?


Padre Dario: Não queremos parecer catastróficos, mas os cenários que são apontados pelos cientistas são extremamente graves e perigosos. Num futuro de curto prazo haverá um desequilíbrio crescente entre regiões de grandes secas, sobretudo na parte interna dos países, e regiões de grandes enchentes, principalmente nas áreas costeiras. O impacto será grande nas ilhas devido ao aumento do nível dos oceanos e maior incidência de fenômenos naturais extremos, como furacões e ciclones. A perda da produtividade agrícola se reflete no aumento da fome e dos fluxos migratórios. Alguns biomas evidentemente estão chegando ao seu limite de sobrevivência e a Amazônia, por exemplo, está a um passo do ponto de não retorno que resultará na desertificação da floresta. Por outro lado, o ser humano é uma espécie muito frágil e as maiores consequências da mudança climática recairá particularmente sobre as pessoas mais pobres.


SSpS: A seu ver, qual o nosso principal erro ao cuidar das nossas florestas?


Padre Dario: O principal erro com respeito às florestas, à água, ao clima e a todos os bens que a natureza nos oferece é considerarmos recursos naturais. Isso dá a falsa sensação de que eles podem ser continuamente extraídos e aproveitados sem limites. É urgente, portanto, suspender imediatamente o desmatamento, recompor as florestas e os modos tradicionais de vida, defender os povos que sabem conviver com a natureza, garantir a demarcação das terras indígenas, propor uma nova relação entre campo e cidade e uma presença humana equilibrada nos territórios.


SSpS: Para o senhor, qual a importância de líderes religiosos se envolverem na luta em prol da conservação do meio ambiente?


Padre Dario: Se a casa é de todos, cabe a todos cuidá-la. Quando João XIII escreveu sobre a paz, ele não se refere apenas aos cristãos, mas dialoga com o mundo num apelo ao diálogo e a união entre as religiões. É evidente a importância de uma aliança comum com outras espiritualidades e religiões inspirada pelo cuidado com a nossa Casa. Inclusive, algumas religiões podem ensinar muito a nós cristãos, que por séculos interpretamos a Bíblia a partir de um antropocentrismo despótico, que se desinteressa das outras criaturas. É urgente e indispensável organizar recursos inter-religiosos para a cura da Mãe Terra; deixando-se inspirar pela sabedoria ancestral dos povos indígenas que, como diz o Papa Francisco, são aqueles que quando deixados livres para cuidarem de suas terras, são os que sabem exatamente mantê-la no equilíbrio mais perfeito.

SSpS: Irmã Ilda Josefine, como a senhora avalia a COP 26? Quais foram os principais pontos discutidos?


Irmã Ida: Existem seis compromissos firmados que são os mais importantes do meu ponto de vista: Pela primeira vez na história da COP, há um chamado para abandonar os subsídios ao carvão e à energia fóssil. Mais de 100 países, incluindo o Brasil, estão comprometidos em deter o desmatamento até 2030 e bilhões de dólares devem ser investidos para proteger as florestas. Outra iniciativa importante é reduzir as emissões de metano em pelo menos 30% até 2030, em comparação com 2020. Cerca de 30 países e empresas concordaram em acelerar o fim do motor de combustão interna previsto para 2040.


A promessa dos países industrializados, principais responsáveis pela crise climática, de fornecer 100 bilhões de euros anuais para o financiamento do clima até 2020? também não foi cumprida em Glasgow. Além disso, o que está sendo realmente pago está muito abaixo dos recursos financeiros necessários para proteger os países mais pobres e os mais afetados pelo aquecimento global. Oficialmente, houve um consenso na COP26 de que mais esforços devem ser feitos para atingir a meta de 1,5 °C, porém com os compromissos feitos até agora, deveremos ter um aumento médio da temperatura de 1,8 a 2,7°C.


SSpS: Entre os compromissos assumidos pelos países durante a COP 26, qual a senhora considera o mais importante? Por quê?


Irmã Ida: Pessoalmente considero a questão da justiça como central, além dos compromissos de maior proteção climática e redução de emissões. Não houve nenhum avanço, mas as questões de perdas e danos, compensação e reparação foram tratadas e se espera que venham a desempenhar um papel mais importante no futuro. Simplesmente não podemos admitir que aqueles que menos contribuíram para a mudança climática tenham que pagar os custos mais altos. Isto foi expresso na COP26, mesmo que ainda não haja solução.


SSpS: Quais lições a senhora tira do evento?


Irmã Ida: Tive a oportunidade de experimentar toda a complexidade do evento. Fiquei frustrada por um lado, mas por outro lado percebi que é sempre uma questão de firmar compromissos. Foi incrível ver tantas pessoas comprometidas lutando por mais justiça e por ações que possam frear a mudança climática. Ao mesmo tempo, foi também lamentável ver quantos lobistas continuaram a lutar apenas por seus lucros e poder.


SSpS: Poderíamos afirmar que há uma estreita relação entre religião e sustentabilidade? O que a senhora pensa neste sentido?


Irmã Ida: Acredito que os valores fundamentais da religião estão muito próximos da sustentabilidade e do cuidado com o meio ambiente. Caridade, simplicidade, paz, amor à criação e o afastamento do consumismo são mensagens importantes da religião. Muitas vezes tenho me perguntado como nós, pessoas religiosas, podemos viver essas mensagens de forma mais autêntica para que tenhamos um impacto maior na preservação do planeta. Talvez o ponto mais importante que podemos trazer como religiosos é a esperança de mudança e de viver em paz com as outras pessoas e a criação de Deus.

Participantes da COP26: Liam Dune SVD, Ida Josefine Haurand SSpS, Alberto Parise MCCJ







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