Interculturalidade para a Missão

O contato e interação entre culturas dos mais diversos cantos do mundo estão aumentando de forma cada vez mais acelerada. Os meios de comunicação, as novas tecnologias e meios de transporte fazem com que poucos grupos permaneçam isolados. Temos acesso ao outro como nunca antes em toda a história. A violência, a mudança de clima, a perseguição política ou religiosa, a pobreza, a xenofobia e a falta de oportunidades obrigam milhões de pessoas, diariamente, a migrar de um lado para outro.


É neste contexto que nós, missionárias, somos desafiadas a ter uma nova compreensão da nossa missão. Há muito tempo que ela deixou de ser algo unidirecional, dos países evangelizados para os não evangelizados ou pagãos, como costumavam ser chamados. A realidade é mais complexa e até mesmo dentro da mesma nacionalidade existem tantas culturas diferentes; que precisam ser acolhidas, respeitadas e valorizadas. Dos meus mais de 30 anos na Congregação Missionárias Servas do Espírito Santo, cerca de 50% estive a serviço fora do Brasil. Foram mais de seis anos em Papua Nova Guiné e quase oito anos na equipe Executiva de VIVAT Internacional, nos Estados Unidos. Foi uma experiência desafiadora e, ao mesmo tempo, extremamente enriquecedora. É a partir dessa experiencia que compartilho minha própria reflexão e compreensão de interculturalidade.


O que é cultura?


Mas, afinal, o que é cultura? O que ela significa? O padre Philip Gibbs, teólogo e antropólogo Missionário do Verbo Divino com quem tive a honra de compartilhar vida e missão, dizia que existem mais de 300 definições de cultura. Para esse artigo eu escolhi, a de Antony Gittins (2008). Ele escreve que “cultura é o jeito como as pessoas em grupo reagem e moldam seus ambientes”. A cultura é dinâmica, porque as pessoas mudam constantemente ao mesmo em que se adaptam às mudanças do mundo a sua volta.


Nós temos a tendência de acreditar que a nossa cultura é perfeita ou, no mínimo, melhor do que as outras. O nome disso é etnocentrismo. A verdade, meus amigos e amigas, é que não existe uma cultura perfeita em todas elas encontramos sinais do Reino de Deus, mas também sinais contrários ao Reino de Deus. Nós precisamos de continua conversão, porque somos limitados e limitadas. O nosso objetivo deve ser chegar ao ponto de olhar para a nossa própria cultura de forma mais crítica, entendo seus problemas e limitações, mas também seus benefícios e vantagens.


A cultura como barreira


A cultura permite que a gente se comunique uns com os outros, nos dá códigos que nos ajudam a interpretar e dar sentido à determinado grupo de pessoas, mas, ao mesmo tempo, ela nos divide. Por exemplo, posso dizer que somos católicos, nos distinguimos daqueles que não são; ou que somos venezuelanas para nos diferenciar das mexicanas. A cultura nos dá noção de pertencimento a um determinado grupo, porém, com ela vem o sentimento que os outros não são como nós.


Esse é o outro lado da cultura. Ela me une a alguns, mas lamentavelmente, me confronta com outros. A boa notícia é que esse enfrentamento cultural nem sempre precisa ser negativo. Se estivermos, verdadeiramente, abertos para aprender com pessoas de outras culturas e livres de julgamento, estaremos dando os primeiros passos para o respeito e valorização da diversidade cultural que compõe as sociedades. O esforço é alimentar a curiosidade e descobertas, além de exercitar a tolerância às ambiguidades e incertezas.


Em busca da interculturalidade


Esse amadurecimento para nos abrirmos e nos relacionarmos com os outros, também, tem nome e se chama interculturalidade. A comunidade intercultural ideal não é aquela composta apenas de pessoas de nacionalidades e culturas diferentes, onde elas simplesmente coexistem umas ao lado das outras. Na interculturalidade, a convivência provoca a transformação de todos envolvidos. A grande riqueza é que essa mudança acontece não apenas em mim ou no outro, mas em todos os indivíduos envolvidos naquele processo.


É claro que esse processo não é fácil ou simples. De acordo com o sociólogo norte-americano Milton Bennett, existem seis estágios para a interculturalidade. No primeiro deles, o indivíduo pouco ou nada sabe sobre o outro; ele está em negação e acredita que a sua experiência cultural é a única real e válida. No segundo passo, a pessoa sente-se ameaçada e é altamente crítica; a defesa de que é superior aos outros permanece. Em seguida, começa a minimização, onde outras culturas são romantizadas e há uma tentativa em negar as diferenças e notar apenas as semelhanças. O quarto estágio é a aceitação, onde a pessoa se mostra curiosa e respeitosa, mesmo não concordando com outras culturas. Quando a pessoa passa a ver o mundo através de olhos diferentes e faz mudanças intencionais no seu próprio comportamento ou valores, ela está no que chamamos de adaptação. O último passo é a integração, quando a pessoa é finalmente capaz de entrar e sair facilmente de diferentes visões culturais do mundo.


Os exemplos de Jesus


Estamos todos numa caminhada para redescobrir como apreciar outras culturas e aprender a celebrar as diferenças. A figura central dessa nossa jornada é a pessoa de Jesus. Ele também precisou lidar com a diversidade e fez isso com amor e sabedoria. Os exemplos que ele nos deixa são sempre de humildade, acolhimento e respeito pelas diferenças. Jesus lançou um olhar amoroso para aquilo que não compreendia e não julgou o que era diferente.


Os cristãos devem entender que eles só conseguem se tornar verdadeiros discípulos de Jesus Cristo se eles se abrirem para a diversidade cultural dos fiéis. É preciso abandonar o modelo do herói paternalista capaz de salvar a alma da outra pessoa e entender que Deus já está presente no outro. Afinal, cada cultura contém tanto a semente da palavra de Deus como elementos contrários ao Seu reinado. Essa avaliação positiva das outras culturas não é crucial apenas para relações mais respeitosas, mas o enriquecimento mútuo e para o reconhecimento do apelo contínuo à conversão para todos.


Um só corpo


Se hoje, o tema de interculturalidade é levado mais a sério nas congregações religiosas, não é apenas porque isso é importante para nossa sobrevivência, mas, porque isso, é da natureza da Igreja e consequência da nossa fé no Deus Uno e Trino. O amor de Deus é unidade na diversidade e diversidade na unidade. O Reino de Deus é sem fronteiras e vai muito além da nossa própria cultura. Às vezes temos que enfrentar esses limites culturais para estarmos em consonância com os valores do reino de Deus; afinal, como filhos do Pai, não somos patrimônio de nenhuma cultura.


O compromisso de viver a interculturalidade em nossas comunidades é uma missão cada vez mais importante nas congregações religiosas, especialmente quando percebemos movimentos crescentes de nacionalismo e etnocentrismo. Toda cultura tem a tendência de se considerar melhor e criar suas normas para julgar as demais. Apenas na vivência intercultural, quando os nativos se tornam hóspedes e estes se tornam anfitriões, a comunidade faz a experiência concreta do conceito Reino de Deus, elaborado por Jesus. Os ensinamentos de Jesus nos ajudam a ver a presença de Deus no outro e a aprender com isso. O amor do Pai nos lembra que somos todos um só corpo e estamos unidos em espírito.




Ir. Zélia Cordeiro, SSpS

Coordenadora de Comunicação da Província Divina Sabedoria, Mestra em Gestão e Negócios pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com dissertação na área de Desenvolvimento de Liderança.











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