Escutar com o Ouvido do Coração


O Papa Francisco propõe, em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações que fixemos a atenção no “escutar”, atitude decisiva na comunicação para um diálogo autêntico.


Estamos perdendo, no dia a dia, a capacidade de ouvir a pessoa que está a nossa frente. Ao mesmo tempo, damo-nos conta que vivenciamos um novo e importante desenvolvimento no campo comunicativo e informativo, (podcast e chat áudio), evidenciando que a escuta continua essencial para a comunicação.


Ao ser perguntado a um terapeuta: qual a maior necessidade do ser humano. Respondeu: «O desejo ilimitado de ser ouvido». O desejo de escutar é o que interpela a todos os que se sentem chamados a ser educadores, formadores, pais, professores, agentes de pastoral...


Escutar com o ouvido do coração

Na Bíblia, a “escuta” está intimamente ligada à relação dialogal entre Deus e a humanidade: “Shemá Israel = escuta Israel”, (Dt 6, 4). São Paulo, em Rm 10,17, afirma que «a fé vem da escuta». A iniciativa é de Deus, que nos fala, e a ela correspondemos escutando-O. Entre os cinco sentidos, parece que Deus privilegia o ouvido, talvez por ser menos invasivo, mais discreto, deixando o ser humano mais livre.


A escuta corresponde ao estilo humilde de Deus. Deus ama a pessoa: por isso, lhe dirige a Palavra, «inclina o ouvido» para o escutar. Nós, seres humanos, tendemos a fugir da relação, a virar as costas, «fechar os ouvidos» para não ter de escutar. Esta recusa de ouvir, pode, muitas vezes, transformar-se em agressividade sobre o outro.


O Senhor nos chama a uma aliança de amor, para que nos tornemos, plenamente, imagem e semelhança de Deus na capacidade de ouvir, acolher, dar espaço ao outro. A escuta é uma dimensão do amor. Por isso, Jesus convida, seus discípulos e a nós, a verificar a qualidade da escuta: «Vede, pois, como ouvis» (Lc 8, 18), sugerindo que não basta ouvir, é preciso fazê-lo bem. Só quem acolhe a Palavra com o coração «bom e virtuoso» e a guarda fielmente é que produz frutos de vida e salvação (cf. Lc 8, 15). Somente prestando atenção a quem ouvimos, àquilo que ouvimos, como ouvimos cresceremos na arte de nos comunicar bem. É a «capacidade do coração que torna possível a proximidade» (Francisco, Evangelii Gaudium, 171). A escuta não tem a ver apenas com o sentido do ouvido, mas com a pessoa toda. A verdadeira sede da escuta é o coração. Santo Agostinho convidava a escutar com o coração (corde audire), a acolher as palavras, não exteriormente nos ouvidos, mas, no coração: «Não tenhais o coração nos ouvidos, mas os ouvidos no coração»


A escuta como condição da boa comunicação

O que torna boa e plenamente humana a comunicação é precisamente a escuta de quem está à nossa frente, face a face, a escuta do outro, com abertura leal, confiante e honesta.


Na realidade, em muitos diálogos, efetivamente não comunicamos; estamos simplesmente à espera que o outro acabe de falar para impor o nosso ponto de vista. Na verdadeira comunicação, o eu e o tu, encontram-se ambos «em saída», tendendo um para o outro.


A escuta é o primeiro e indispensável ingrediente do diálogo e da boa comunicação, antes de se comunicar é preciso escutar.


O cardeal Agostinho Casaroli, perito da Santa Sé, falava de «martírio da paciência», necessário para escutar e fazer-se escutar. A escuta requer sempre a virtude da paciência, juntamente com a capacidade de se deixar surpreender pela verdade da pessoa a quem escutamos.


Escutar-se na Igreja

O ato de escutar é o dom mais precioso e profícuo que podemos oferecer uns aos outros. Nós, cristãos, esquecemo-nos de que o serviço da escuta nos foi confiado por Aquele que é o ouvinte, por excelência, e em cuja obra somos chamados a participar. «Devemos escutar através do ouvido de Deus, se queremos falar através da sua Palavra. O primeiro serviço na comunhão que devemos aos outros é prestar-lhes ouvidos. Quem não sabe escutar o irmão, bem depressa deixará de ser capaz de escutar o próprio Deus”. (Bonhöfffer).


Na ação pastoral, a obra mais importante é o «apostolado do ouvido». Devemos escutar, antes de falar, como exorta o apóstolo Tiago: «cada um seja pronto para ouvir, lento para falar» (1, 19). Oferecer gratuitamente um pouco do próprio tempo para escutar as pessoas é o primeiro gesto de caridade.


Fonte: Mensagem para o 56º dia Mundial das Comunicações Sociais - Papa Francisco. Roma, 24 de janeiro de 2022.




Irmã Hermelinda Maria Ruschel, SSpS

Coordenadora do Comidi - Ponta Grossa

Membro da Equipe de Comunicação


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