Dois séculos de Independência do Brasil e as eleições


Em 7 de setembro de 1822, o Brasil teve sua Independência, segundo registro histórico, deixando de ser colônia de Portugal. Um grito foi dado por Dom Pedro I às margens do Riacho do Ipiranga: “Independência ou morte!”. Mas foi um grito que representou apenas determinado grupo. Quantos gritos ainda são dados pelas periferias da sociedade brasileira? Quem ouve os gritos que são dados, atualmente, nas estradas, nas fábricas ou nas florestas?


Sabemos que o Brasil Império teve muitos escravizados, tanto indígenas quanto negros, rebeliões de Norte a Sul do País, problemas diversos cujas sequelas sociais e econômicas existem até hoje. A Corte mantinha seu poder junto do Colegiado. A liberdade tão sonhada custou a vida de vários inconfidentes. Quantos movimentos insurgiram protestando contra os maus-tratos dos senhores de engenhos… Quilombolas e indígenas perseguidos pelos capitães e bandeirantes, o sertão nordestino sendo explorado, as terras sendo divididas cada vez mais por um grupo de portugueses amigos do imperador.


Em 200 anos, a extração das drogas na Floresta Amazônica, os minérios e pedras preciosas em vários lugares do território, principalmente o mineiro, antes considerado de Portugal, tornou-se cobiça de muitos estrangeiros como espanhóis, franceses, holandeses, além dos portugueses. Até hoje, a exploração feita acaba não beneficiando todos. A miscigenação avançou, e o povo foi crescendo e percebendo o quanto injusto o Brasil Império foi e deixou a desejar em relação à liberdade. Quantos mártires tivemos dando a vida pela terra, contra a exploração dos menos favorecidos, defendendo a vida e combatendo preconceitos?


A população, em sua maioria, era rural. Depois de muitos anos, quase dois séculos, passou a ser urbana, buscando um status quo semelhante ao de outras cidades europeias. Como sabemos, as antigas capitais do País tornaram-se história viva para quem passa pelas ruas do Rio de Janeiro ou de Salvador, por exemplo. Isso demonstra que a elite brasileira sempre apreciou o que era considerado erudito ou clássico, desprezando, portanto, o popular, visto como folclórico.


Mas, se completamos dois séculos de Independência, então, por que, neste ano, houve a preocupação de trazer o coração de D. Pedro I para a comemoração, se ainda há muitos corações brasileiros passando fome, sem moradia, sem emprego, sem acesso à educação e à saúde, sofrendo preconceitos e discriminação? Como ficam os corações dos brasileiros?


Neste Bicentenário, teremos eleições para o Poder Legislativo e o Poder Executivo, tanto estadual quanto federal. Nesse contexto, esperamos ouvir o grito de cada eleitor através das urnas eletrônicas. “O grito do Ipiranga”, na República, foi substituído pelo “grito dos excluídos” que ocorre no Sete de Setembro, como uma forma de a sociedade civil chamar a atenção das autoridades para os problemas que o povo passa.


Que, nas próximas eleições, ouçamos o grito da justiça, da igualdade, da solidariedade, da paz pulsando milhões de corações da Nação. Que nossa Pátria tenha representantes justos, éticos, conscientes, garantindo, assim, nossa democracia, conquistando nossa Independência a cada dia.


Maria Terezinha Corrêa

Mestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar); graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia pelo Mater Ecclesiae; filiada à ABA, APEOESP, SBPC, Sintran; atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC; voluntária na Comissão de Prevenção e combate à tortura (ALESC) e na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC; membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil); e, recentemente, da AVCC de Jales-SP.

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