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Da sensibilidade na educação ambiental


Em 26 de janeiro, comemora-se o Dia Mundial da Educação Ambiental. Com a data, inauguramos nossos textos mensais sobre espiritualidade e preservação de condições de vida na Terra. Duas emoções contraditórias me tomam ao iniciar a escrita: a primeira é de esperança, do verbo esperançar, sempre lembrado por Paulo Freire; a segunda é de temor e reverência pela delicada, provisória e complexa teia que dá sustentação ao equilíbrio do planeta.


A narrativa da criação do mundo, em Gênesis (cap. 1), é feita de poesia e contentamento: “… E Deus viu que isso era bom”. Aldo Leopold, Rachel Carson e Leonardo Boff assumem a mesma delicadeza para defender a ética da Terra, a ética do cuidado e a integração entre a vida na Terra, no ar e no mar. Vejamos, nas linhas de Boff, quando argumenta a favor de uma educação planetária:


Conhecer nossos irmãos e irmãs da comunidade da vida significa reconhecer a importância do Sol, conhecer nossa flora e nossa fauna, a origem das montanhas, dos vales e dos rios e de onde moramos. Mas não só: conhecer a história humana desses lugares, quem foram seus primeiros habitantes, que sinais deixaram, que monumentos nos legaram, que textos literários produziram, que pessoas referenciais geraram como poetas, escritores, escultores, cientistas, músicos e sábios. Isso implica derrubar as paredes das escolas e fazer com que os estudantes entrem em contato direto com a natureza, a organização da cidade, com a distribuição dos espaços, não apenas na forma de curiosidade, mas de reconhecimento e de comunhão com todos os irmão e irmãs que nos circundam (Leonardo Boff. O cuidado necessário, 2012, p. 263).


Akira Kurosawa, com igual lirismo, traduziu, em imagens e linguagem cinematográfica, a história de Dersu Uzala, escrita pelo romancista russo Vladimir Arseniev, em 1923. Dersu personifica um caçador que vive numa floresta asiática. Por sua intimidade com o ambiente, guia um grupo de topógrafos e impressiona pela sintonia com as leis naturais e sua relação com os habitantes da floresta, seus fluxos, seu tempo. Para Dersu, a floresta é habitada por muitas “gentes”, como os animais, a Terra e o rio.


Estamos em 2023! Precisamos despertar coletivamente para a importância do cuidado de nosso habitat e situá-lo no topo de nossas prioridades. Trata-se de um tempo no qual a fragmentada ciência não dá conta dos complexos desafios que se apresentam; um tempo que pede por outro paradigma de conhecimento: o da sensibilidade, da emoção, da arte e da espiritualidade. Com isso em mente, lembramos o Dia Mundial da Educação Ambiental com pessoas e passagens que educam para a vida, por meio da beleza, de histórias, do ritmo, da experiência e da sutileza.


Referências


BÍBLIA SAGRADA. Gênesis. Revisada por Frei José Pedreira de Castro. São Paulo: Ave-Maria. p. 49-50

BOFF, Leonardo. O cuidado necessário. Petrópolis: Vozes, 2012.

KUROSAWA, Akira. Dersu Uzala. Studio Mosfilm. 1975.



Marli Teresinha Everling

Professora nos cursos de graduação e pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville/Univille; coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.

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