As Mulheres na Bíblia


Na história, as mulheres surgem como sementes de esperança em meio à luta e sofrimento do povo. As mulheres bíblicas, aparecem a partir de um contexto ligado ao sistema religioso/Templo, que servia a todos os outros sistemas: político, social e econômico.


As mulheres rompem a ideologia, citada em Ecl 25, 24: “Foi por culpa da mulher que o pecado começou, e é por culpa dela que todos morremos.” Na verdade, é por causa da mulher que todos nós vivemos. Não há ninguém que tenha nascido, que não seja de uma mãe/mulher.


Outra mudança corajosa foi a mudança de mentalidade de que a mulher é para a casa, uma serva inferior, a serviço do homem, considerada boa se ficasse calada e obedecesse. (Ecl 25, 13-28).


Essas ideologias dominantes legitimadas pelo sistema do templo e reforçadas pelo sistema religioso/classe sacerdotal, faz da mulher a maior vítima do plano econômico, político e pessoal. E, é neste contexto que as mulheres se levantam na resistência. É da casa da mulher que surgem textos bonitos e profundos, de estilo novo e surpreendente.


No decorrer dos escritos bíblicos (AT) destacam-se mulheres como: Ester, Rute, Judite, Susana, Sulamita e as mães não identificadas pelo nome. Não há um discurso direto delas, mas, uma forma literária inteligente, em parábola, um conto inventado, que transmite de maneira simples o pensamento profundo de resistência no controle sobre a mulher:


Ester: órfã e pobre (Est 2,7) se arruma e “mais esplendorosa que nunca” se apresenta diante do rei para convencê-lo a decretar a libertação do povo.


Judite, viúva (Jt 8,2) e sem filhos, se faz ainda mais bela para cortar a cabeça de Holofernes, opressor do povo. Na casa de Judite ressurge a memória do Deus que envia, que conta conosco para libertar o seu povo, que anima e fortalece nossa luta. É a memória do povo da terra que expressa, a partir da casa de Judite, a fé num Deus que lutou por liberdade, pois Ele é “o Senhor Vencedor.” (Jt 9,7).


Rute, viúva, estrangeira e pobre (Rt 1,4s). A história dela tem como centro operativo a casa de Noemi. Elas fazem tudo sem precisar de homens, e lutam, incansavelmente, para conseguir os seus direitos básicos: terra, pão e vida. Rute é solidária com os pobres, luta pelos seus direitos e não aos sacrifícios e rituais (Rt 2, 1-11; 3,10-13).


Susana, uma mulher sem casa própria. A casa é de Joaquim. E esse espaço foi tomado pela sinagoga, como lugar de reunião e tribunal (Dn 13, 6-7). Mas ela tem um jardim (símbolo do paraíso) e a chave dele. A sua casa passou a ser casa de julgamento (Dn 13,6). Simbolicamente o lugar de Susana é o jardim. La ela age, manda abrir e fechar as portas (Dn 13, 15-18). Susana, a mulher indefesa e caluniada (Dn 13).


Sulamita, mulher negra do Cântico dos Cânticos (Ct 1,5). Ela projeta alcançar a paz, reviver o milagre do Éden. O Cântico sai da boca de uma mulher amante e amada. Um cântico de mulher para mulher. O corpo da mulher ergue-se livre, longe de ser motivo de impureza, é fonte de gozo e descanso. Sem maridos/senhores, sem filhos/herdeiros: mulher e homem em perfeita harmonia (Ct 2, 16).


A teologia da mãe sem nome. A última contribuição do Antigo Testamento deu-se a partir de uma mãe que tem sete filhos (símbolo do povo) que se encontra em 2Mc 7. É a teologia da ressurreição. O que intriga o hebreu é a morte de quem não deveria morrer, o martírio. E naquele momento de morte vem a resposta de uma mulher. O ventre da mulher é o lugar teológico da fé desta mulher ao ver a morte dos seus filhos que morrem injustamente. Ela tem certeza que a vida vence a morte.


A teologia da ressureição é completamente diferente: é o grito da mãe que sabe que a morte na luta não é o fim, é preciso continuar lutando. Uma mãe que ultrapassa as barreiras da morte. A vida deve triunfar. Esta mãe é o símbolo do povo pobre que resiste, recupera a sua memória e elabora uma contra-idelogia, que insiste na sua resistência e luta. A mãe gera uma nova mística da vida, num momento em que parece reinar, invencivelmente, a morte. É da boca e do coração de uma mãe que sai, pela primeira vez, a proclamação clara de fé na ressurreição.


A libertação do povo passa pela ação das mulheres, a partir delas e de seu espaço. Um espaço novo onde não são submissas e oprimidas. Um espaço onde pode ser revelada toda a sua força. Um espaço livre, onde elas e Iahweh podem manifestar-se e agir em toda a verdade e riqueza: o novo e a libertação vêm de onde ninguém espera, considerado o lugar da pessoa inferior e desprezada.



Referências

Gallazzi, S.; Rizzante, A. M. (2012). Teologia das mulheres. A quem Deus revelou seus mistérios São Paulo: Fonte editorial. Gallazzi, S. (2020). Leitura Militante da Bíblia RS: CEBI.




Ir. Ivani Krenchinski, Missionária Serva do Espírito Santo

Naturoterapeuta/Nutricionista, Pós Graduada em Acupuntura e Fitoterapia.

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