Apesar da sua mensagem ser quase abafada pela
euforia do consumismo e materialismo que transforma a grande festa cristã
do Natal do Senhor numa verdadeira orgia pagã de esbanjamento e exclusão,
a história do nascimento do Senhor, contada nas palavras singelas
de Lucas, perdura ainda com a sua mensagem profunda de paz, união,
solidariedade e amor, que o néo-paganismo pós-moderno da nossa
sociedade é incapaz de ofuscar.
As Missas da vigília e da aurora usam dois textos contínuos
da Lucas, que realmente formam um mosaico teológico de grande beleza,
através da sua habilidade literária. Lucas pega as tradições
que põe a origem de Maria e José em Nazaré e junto-as
às que colocam o nascimento de Jesus em Belém, e as insere
na história humana e universal, através das suas referências
a grandes figuras históricas da época, César Augusto,
Herodes o Grande e o governador da Síria, Quirino. Nesse contexto
ele tece uma rede que contem oito dos seus temas preferidos – alimento,
graça, alegria, pequenez, paz, salvação, “hoje”,
e universalismo, para trazer à humanidade de todos os tempos “uma
boa notícia, uma alegria para todo o povo”(2, 10).
Embora haja uma confusão sobre as referências cronológicos
na Lucas, pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não
se tem informações extra-bíblicas sobre um recenseamento
feito por Augusto, a finalidade de Lucas é situar o nascimento do
Salvador bem dentro da história humana – e especialmente a
história humana dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho
de viajantes, forcados a sair da sua casa pela força opressora do
império, pois a finalidade dum recenseamento era alistar todos para
cobrança de impostos. Assim o Messias nasce em condições
subumanas e indignas – como nascem e se criam milhões de crianças
todos os anos na nossa sociedade atual. Como não teve lugar para
eles na “hospedaria” (um tipo de albergue para viajantes, onde
os animais ficavam no pátio, no primeiro andar tinha cozinha comunitária
e no segundo andar dormitórios, algo ainda comum em certas regiões
do Oriente hoje), Maria dá à luz numa gruta ou estrebaria
e deita Jesus numa manjedoura.
Logo Lucas introduz mais personagens tirados dos excluídos da religião
e sociedade de então – os pastores. No tempo de Jesus eram
considerados como delinqüentes, dispostos sempre ao roubo e à
pilhagem, por isso não mereciam confiança alguma e nem podiam
testemunhar em juízo. É importante notar que em Lucas são
pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo
(pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos
mais importantes da história – o nascimento e a ressurreição
do Salvador. Natal se torna festa de inclusão dos que a religião
oficial e a sociedade dominante excluía – enquanto a maioria
da classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente nos
templos de consumo de hoje – os Shoppings, onde pessoas pobres são
excluídas do banquete de poucos. Que contradição!!!
É importante também por em relevo a mensagem dos anjos: "Glória
a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v 14). Aqui
Lucas cria um binômio – dois elementos conjugados, ou seja,
uma maneira de dar glória a Deus no alto é a criação
da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz”
há um cabedal de reflexão teológica, vindo do Antigo
Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que
significava a palavra hebraica “Shalôm", que não
se limita a uma mera ausência de violência física, mas
inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos
e filhas. Portanto o texto natalino nos convida e desafia para que demos
glória a Deus através do nosso esforço em criar um
mundo de Shalôm – onde todos possam “ter a vida e a vida
em abundância!” (cf Jo 10,10)
É importante também refletir como Lucas nos apresenta a pessoa
da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se”
(v. 18), “Maria porém conservava isso e meditava tudo em seu
íntimo”(v 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo
verbo grego (synetèrein): Gn 37,11 e Dn 4, 28, para descrer a perplexidade
íntima duma pessoa que procura entender o significado profundo dum
fato. Assim Lucas enfatiza que Maria não captou de imediato todo
o sentido do que ouviu, mas meditava as palavras, contemplando-as, para
descobrir o seu significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo
o sentido profundo dos acontecimentos – se torna peregrina na fé,
modelo para todos nós, nos convidando a nos mergulharmos nos relatos
evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e
o que eles podem significar para nós hoje.
A festa de Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos
no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação.
Mas, se fizermos dele somente uma festa de consumismo e materialismo, jamais
colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico,
familiar e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos ídolos
do ter e do prazer tão bem promovidos pelo marketing dos Shoppings
– mas retornemos à singeleza da gruta de Belém e redescubramos
o motivo duma verdadeira “alegria para todo o povo”, - nasceu
para nos o Salvador!