Irmã Ana Paula Ganzer, SSpS, estudante do 2º ano de Teologia no Centro Universitário La Salle, partilha conosco a síntese do livro - Discipulado De Iguais: Uma Ekklesia-Logia Feminista Crítica Da Libertação. (Elisabeth Shussler Fiorenza - Trad. Yolanda Steidel Toledo).
    Este trabalho foi apresentado por ela durante o Congresso estadual de Teologia/RS, ocorrido de 11-14 de maio de 2009, no Unilasalle, onde estiveram reunidas 7 faculdades de Teologia Católica do Rio Grande do Sul/RS.
    O presente trabalho foi apresentado como comunicação cientifica, no painel do grupo de Teologia Feminista na avaliação dos doze anos de caminhada da reflexão da Teologia Feminista Estef - Unilasalle.

    DISCIPULADO DE IGUAIS: UMA EKKLESIA-LOGIA FEMINISTA CRÍTICA DA LIBERTAÇÃO
    O livro é composto por reflexões feitas em diversas ocasiões ou acontecimentos como Conferências, Congressos, artigos para jornais e revistas, debates, fazendo um mapeamento cronológico da luta feminista na Igreja e na Teologia. Nele a autora aborda o contexto patriarcal em que a reflexão teológica cristã foi desenvolvida e também as influências diretas e suas conseqüências na estruturação da Igreja Cristã.
    Percebe-se no livro uma linha do tempo implícita, na qual vai aparecendo como foi a questão da liderança das mulheres no início do cristianismo e como aos poucos foi sendo abafada pelo patriarcalismo. Bem como há uma cronologia de toda a luta do feminismo cristão, movida pelo objetivo de resgatar o papel de liderança das mulheres na Igreja cristã, garantido assim a plena participação delas na Igreja e a plena universalidade da própria Igreja.
    Traz em sim o caráter “reconstrutivo-reformista”, e busca força na Tradição Cristã do Reino de Deus ou basiléia que é permeada pelo senso de justiça, igualdade, dignidade e salvação para todas as pessoas. Nesta perspectiva Elisabeth trabalha a questão do “Discipulado de Iguais”, na luta para que mulheres e homens tenham os mesmos direitos de seguirem os passos de Jesus como discípulas e discípulos.
    Ao falar em Discipulado de Iguais, a autora não defende a integração das mulheres nas estruturas patriarcais presentes, mas uma transformação da Igreja em basiléia , pondo fim as injustiças e permitindo que homens e mulheres sentem ao redor de uma mesma mesa e partilhem o pão, bem como possam alimentar famintos, curar doentes e libertar os oprimidos.
    Sendo mulher e leiga, a autora sustenta o argumento de que na Igreja existem duas formas piramidais na organização, mais ou menos assim, existe a pirâmide estruturada pelo poder: clero/leigos e a pirâmide homens/mulheres, nesse sentido no clero estão incluídas as religiosas, mas abaixo do poder dos clérigos. Abaixo do clero está o laicato. Na outra pirâmide homens/mulheres, os homens estão acima das mulheres, mesmo os leigos, neste sentido a mulher/leiga é duplamente inferior.
    Estrutura essa que foi formada com base no modelo constatiniano de Igreja, quando o cristianismo foi adotado como religião imperial, onde as pessoas não se tornavam cristãs por opção, mas por terem nascido numa “sociedade cristã”, sendo assim, a salvação era obtida por meio dos sacramentos e presença nos ritos litúrgicos, sempre mediada pela hierarquia ordenada. Dentro dessa concepção de alcance da Salvação, como um cumprir normas, a hierarquia eclesial foi se tornando absoluta, excluindo os leigos da participação eclesial.
    Mesmo durante a Reforma e o Iluminismo, essa forma permaneceu engessada, aos poucos a categoria povo de Deus estava exclusivamente direcionada a classe das pessoas que viviam em ordens religiosas, ou que eram ordenados, deixando de incluir a todos os batizados como povo de Deus.
    Dentro deste esquema nas relações de poder, não basta que as mulheres sejam simplesmente “aceitas” para o clero em posições inferiores, mas é necessária uma desclericalização da própria instituição eclesial.
    A base bíblica que dá sustentação a esta proposta é a de Gal 3, 28, mas que só poderá ser concretizado se o caráter hierárquico patriarcal for transformado, transcendendo as formas sexistas de pensamento teológico e eclesial, permitindo assim que a Igreja viva a sua verdadeira catolicidade, onde não há mais nem pobres nem ricos, nem livres ou escravos, nem homens ou mulheres.
    Embora na origem a comunidade de Jesus tenha sido uma comunidade de Discipulado de Iguais, no decorrer do tempo foi juntando elementos da cultura greco-romana que trazia em seu caráter a inferioridade do sexo feminino.
    Um grande passo foi dado, quando o Concilio Vaticano II resgatou a compreensão de sacerdócio para todos os fiéis, na perspectiva neotestamentária, onde todos aqueles e aquelas que acreditam em Jesus Cristo podem ser santificados. Assim sendo, todos os fiéis são chamados a participar da edificação do “Corpo de Cristo”, de acordo com os dons do Espírito.
    Dessa forma, como o que é decisivo é o batismo, todos os membros da Igreja podem exercer funções de liderança litúrgica e eclesial. Sendo assim, os argumentos que impedem a ordenação das mulheres são insustentáveis, uma vez que são fundamentados em uma concepção errônea de Igreja.
    Para chegar a tal objetivo a autora propõem 5 estratégias para as mulheres que atualmente já estão engajadas no ministério: a) a criação de um movimento interdisciplinar que tragam presente as contribuições dadas pelas mulheres na história da Igreja. b) Lutar por liderança, desenvolvendo os seus papéis com competência. c) possibilitar que as mulheres alcancem o conhecimento teológico, não apenas a “teologia leiga”. d) reconhecer e confirmar os ministérios já exercidos pelas mulheres, e enfatizar que as mulheres têm direito a todas as funções ministeriais na Igreja, inclusive o episcopado e o papado. e) pedir o fim do celibato obrigatório, transformando a espiritualidade ministerial a luz da espiritualidade e teologia da Igreja como povo de Deus.
    Tudo isso requer uma nova visão critica da Igreja e da tradição. Onde a mulher não seja apenas vista como mãe, seja no sentido biológico ou espiritual, no caso das freiras. E que por isso podem ser submissas ao poder patriarcal.
    A luta da teologia feminista por uma mudança radical nas estruturas da Igreja e da teologia, não ocorre apenas pela questão dos direitos iguais, mas por acreditar que com a plena participação das mulheres as igrejas podem ser mais humanizadas afim de melhor servirem às pessoas sem oprimi-las.
    Sabe-se que nas primeiras comunidades cristãs as mulheres exerceram posições de liderança, uma vez que em Jesus as diferenças foram abolidas, mas como Ele não deixou nada por escrito, aos poucos a igreja foi adquirindo modelos estruturais judaicos e gregos, e assim vai solidificando uma maneira patriarcalizada, onde somente as mulheres que haviam transcendido os papéis sexuais (virgens e viúvas), e que podiam exercer liderança.
    Embora existam evidencias de que a comunidade cristã tenha se formado em torno das mulheres, o contexto patriarcalista foi se acirrando, e no intuito de abafar a liderança das mulheres, as domesticou ou em casa ou em comunidades celibatárias, como se não bastasse isso no decorrer do tempo, umas foram colocadas contra as outras, no dualismo freira/leiga. As que resistiram contra essa domesticação foram consideradas hereges e expulsas do cristianismo.
    A plena catolicidade da Igreja só vai ser alcançada se ocorrer uma conversão radical, e um abandono total do sexismo, não apenas no que diz respeito à salvação, como está expresso na Lumen Gentium, mas também na questão dos ofícios eclesiais, deixando de abafar a voz do Espírito que faz apelo à plena participação das mulheres na Igreja.
    A fim de conseguir essa plena participação, é necessário que seja formada uma Nova Irmandade cristã de irmãs, pondo fim à divisão entre freiras e leigas, e em que somente a mulheres celibatárias é que pode ser chamada de “irmã”.
    Nesse sentido, é importante que aconteça a construção de uma ekklesia de mulheres, (não no sentido sectário) superando todos os dualismos estruturais patriarcais que as dividem, e as levam a competição e transformar tudo isso em movimentos femininos como povo de Deus, e formando assim uma rede de solidariedade na luta com todas as mulheres, num compromisso espiritual de que todas sejam libertadas de situações de escravidão.
    A espiritualidade cristã e feminista tem suas raízes nessa proposta de Igreja, que é uma Igreja “corpo de Cristo”, e sua grande questão é “como é possível apontar para o pão eucarístico é dizer “isto é meu corpo”, enquanto corpos femininos estiverem exauridos, estuprados, esterilizados, mutilados, prostituídos e usados para fins masculinos?” (FIORENZA, 1995, p. 228). Portanto essa ekklesia de mulheres tem a missão de defender as mulheres de todo o tipo de violência e responsabilizar-se com seu bem-estar integral.
    No entanto, essa forma de Igreja não exclui os homens, mas é um recurso linguístico, usado para chamar a atenção para o fato de que as mulheres também são Igreja, e quer resgatar o que foi a Igreja em sua origem como comunidade de Discipulado de Iguais, trazendo consigo também a dimensão política, pois ekklesia no vocabulário grego significa “assembléia democrática”.
    A ekklesia de mulheres, portanto tem a finalidade de transformar a Igreja em basiléia do mundo conforme a vontade de Deus, dado esse fator ela não é separada da Igreja, mas é parte dela e tem a missão de transformar suas estruturas patriarcais em uma comunidade de Discipulado de Iguais. Onde não há mais “judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos são um em Jesus Cristo”. (Gal 3,28).

    Elisabeth Shussler Fiorenza
    Trad. Yolanda Steidel Toledo
    Síntese: Ana Paula Ganzer

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